>> Álvaro Pereira Júnior - cby2k@uol.com.br  EM MEIO A queda das bolsas, caos na Bolívia e outras hecatombes, uma notícia importante e muito triste passou despercebida na semana passada: o suicídio, por enforcamento, do escritor americano David Foster Wallace, aos 46 anos.
Que um escritor se suicide não chega a ser novidade: Hemingway, Virginia Woolf, Hunter Thompson, Maiakóvski. A lista é longa, e Wallace, apenas seu mais novo integrante. Mas dois detalhes causam estranhamento nessa história de morte. Primeiro, o lugar: o ensolarado, próspero e feliz sul da Califórnia, mais precisamente a cidade de Claremont, nas imediações de Los Angeles. Lá fica a instituição onde Wallace dava aula, o Pomona College, uma dessas faculdades pequenas, mas de alta qualidade, que nos EUA são chamadas de "liberal arts colleges". Professores universitários às voltas com os fantasmas da mente são personagens comuns na literatura. Para ficar em dois exemplos de que lembro agora, temos Coleman Silk, em "The Human Stain" (de Philip Roth), e Jack Gladney, em "White Noise" (de Don DeLillo). Esses dois casos da ficção são de acadêmicos que ensinam em pequenas cidades geladas do norte do país, sem nada relevante por perto além da própria faculdade. O isolamento e a natureza inóspita criam a moldura perfeita para os atos extremos desses intelectuais sem rumo. Segundo detalhe estranho: a razão da morte. Wallace tomava remédios contra depressão havia 20 anos. Mantinha-se produtivo e, me atrevo a dizer, até um pouco chato: falante demais em entrevistas, extravagante demais no visual etc. Após tanto tempo de uso, os remédios começaram a causar efeitos colaterais, e um médico decidiu retirá-los. Como resultado, ele mergulhou na mais profunda depressão, e dela nunca mais consegui sair. Wallace morreu cercado de um mundo tão perfeito quanto possível, destruído por uma doença quimicamente tratável. A morte de David Foster Wallace foi tão incomum quanto sua literatura. CD PLAYER PLAY - Obituário de Wallace no "New York Times" Texto informativo e compreensível até para quem nunca ouviu falar do escritor: http://is.gd/2RsL PLAY - Novas do TV on the Radio Estão aqui: myspace.com/tvotr. Rock negro levado a limites aterradores de experimentação. PAUSE - "To Survive", Joan as Policewoman A voz é linda, mas que falta fazem boa canções! "To Be Lonely" é a melhor faixa. Folha de São Paulo – 22-09-2008
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